Às 07h45 do dia 26 de maio de 2022 vi a mulher da minha vida passar pela calçada da clínica em que eu a aguardava. Sabe desses vidros que não dá pra ver dentro, mas que quem está dentro vê tudo lá fora? Reparei que ela deu uma leve ajeitada na sua vestimenta e continuou seu caminho ao meu encontro. Ela não me viu, mas eu a vi.
Linda e séria como costuma ser. Sorri sem esperar resposta. Sorri por a amar. Sorri por amor.
Ao entrar, teimou com a moça dizendo que o horário era às 07h50. A moça afirmava que era às 07h30. Sentou-se o mais próximo que pôde de mim, pois as longarinas pandêmicas não nos deixam sentar lado a lado. Aguardamos fingindo não estarmos nervosos e depois de algum tempo fomos chamados para o procedimento. Ela a paciente, eu o acompanhante.
A moça me solicitou para aguardar numa espécie de antessala, para que a paciente pudesse se trocar. Sentei ali e juro que pela primeira vez na vida só pensei em coisas boas. Nos vi pais! O ambiente de hospital não favorece bons pensamentos. Quase nunca estamos bem quando dentro de um, mas pela primeira vez, mesmo que pela máscara, respirei tranquilo.
Instantes depois ela me aparece por uma fresta na porta para me passar uma chave. Do pouco que pude ver, ela tinha trocado sua roupa por uma espécie de macacão verde. Verde da clínica. Sorri. Como pode ela ficar linda até mesmo com um macacão pré procedimento clínico?! Veio outra moça e nos levou até o consultório. Ao entrar me deparei com aquela cama onde as mulheres tem que deitar com as pernas abertas. Não nego que senti um leve constrangimento, coisa que passou rápido, pois ambos transpareceram profissionalismo.
– Pode gravar? Ela perguntou.
– Pode sim, mas só após eu lhes confirmar.
– Tudo bem. Respondi.
Começou a ultrassonografia. Movimentos estranhos no monitor cheio de informações. Uma bolinha mais escura. Ele marcou umas letras às margens daquela bolinha e passou algumas instruções impossíveis de se interpretar à assistente.
De repente começa um som numa cadência acelerada. Depois dessa sequência de incansáveis “tof tof tof tof” o médico fala:
– Pode gravar.
– Grava! ela disse.
Não conseguia tirar os olhos do monitor, tentando interpretar o som, o movimento, a ponto que simplesmente não consegui mudar a câmera para o modo de vídeo. Mas não percebi e continuei ali, sem olhar o celular, mas sim pro monitor.
– 6 semanas. 5 dias. 7 milímetros. Tudo está certinho blá blá blá
Não tenho noção do que o médico falava. Só ouvia aquele “tof tof tof tof tof” contínuo. Forte. É muito mais forte do que poderia imaginar. Será que é normal ser tão sonoro assim?
– Vai bater muito mais forte nas próximas semanas.
Ele me ouviu? Como assim o médico me ouviu? Eu falei alto ou foi a Núbia que o perguntou algo? Não sei dizer.
Finalizada a ultrassom, e ela já recomposta, nos encontramos novamente naquela antessala. A abracei com força. Talvez mais do que deveria. Me emocionei. Disfarcei as lágrimas e seguimos até a saída da clínica. Ali na calçada foi um momento daqueles em que não cabem palavras. Nada no mundo é capaz de expressar o que eu sentia naquele momento. Talvez uma música, um quadro, uma escultura explicaria, mas não eu. Inefável.
Ficamos ali nos olhando, nos abraçando, mas algo incomodava, uma tal de responsabilidade com horários nos chamava. Ela tinha que retornar para produção diária dela. Eu tinha que voltar para a minha. Nos despedimos e parece pouco ou seco diante de tudo que estava acontecendo, mas sim, nós dois estávamos diminutos perto do acontecimento todo que esse ser humaninho em gestação estava nos proporcionando.
Seis semanas e cinco dias!
Entrei no carro. Dei partida. Desliguei. Seis semanas e cinco dias e outras coisas, estados que não pude ouvir pois ouvia seu coração. Chorei. Chorei como se não houvesse amanhã, ali mesmo no estacionamento. Tentei me recompor e enviei duas mensagens, uma para minha mãe e outra para minha irmã. Desabei novamente em lágrimas envolto nesse misto de alegria, medo e expectativas.
Logo me lembrei que as pessoas que aguardavam na recepção poderiam me ver chorar, assim como eu a vi chegar. Não me importei muito, pois voltei a sorrir de lembrar que sorri para ela, assim, sem ela ver. Sorri sem esperar nada, pois sorri por a amar. Sorri por amor.
